Dedicando sua vida ao Aikido, seus professores e seus amigos.
Entrevistador: Tsukasa Matsuzaki, 05 de Setembro de 2000, no Hashimoto dojo.
- Uma infância reservada.
AikiNews: O mestre Kobayashi tem treinado Igarashi sensei desde quando era um estudante universitário. Depois disso, mestre Igarashi trabalhou como instrutor para o mestre Kobayashi por muito tempo. Eu ouvi que o senhor veio da prefeitura de Niigata
Igarashi: Sim, eu nasci em Mikawa-Mura Higashi Kanbara-gun Prefeitura de Niigata. Eu nasci em 1946, logo depois da Segunda Guerra Mundial. Durante minha infância eu mudava frequentemente, pois meu pai trabalhava para uma companhia de seguros de vida. Desde os meus 5 anos de idade o mais longo período de tempo em que ficamos em um lugar foi de 2 a 3 anos, e o mais curto foi de 6 meses.
Durante a escola primaria nos mudamos 3 vezes, e durante o ginásio mudamos 3 vezes. Em cada mudança eu era transferido para uma nova escola. Durante o primário eu estava em Niigata, no ginásio em Sapporo, Hokkaido.
Durante os primeiros anos estava tudo bem em ficar mudando, mas quando fui ficando mais velho ficar mudando de escolas varia vez tornou difícil fazer amizades. Como resultado eu fiquei fechado, mantendo apenas alguns amigos próximos da época do ginásio.
AikiNews: Seu primeiro contato com artes marciais, mas não foi Aikido; foi Judo, correto?
Igarashi: Quando entrei no colégio Tsurumi, em Yokohama. Eu era tímido e queria mudar minha personalidade, por isso eu comecei a treinar Judo. Ate então eu não era muito de fazer atividades esportivas, e eu era um jogador ruim especialmente nos esportes com bola e por isso escolhi o Judo. Eu recebi faixa preta (Shodan) em Judo em 3 anos. Foi no íngreme Mitsuike Park, atrás do colégio e correr era parte do treinamento. Era tao difícil no meu caso. Eu tinha um corpo pequeno com apenas 160 centímetros de altura e pesava 50 Kg. Por isso não conseguia completar inicialmente. Gracas ao Judo minha atitude mudou de tímido para uma pessoa mais extrovertida e confiante. Judo era divertido e mesmo assim os treinos eram sempre árduos. Foi uma ótima experiencia para conhecer outras Artes Marciais, além do Aikido.
- O encontro com o Aikido
AikiNews: Você entrou para Universidade Meiji?
Igarashi: Sim, em Abril de 1964, eu ingressei na faculdade de politica e economia. Eu vi o Aikido pela primeira vez na Universidade. Ainda que tenha me formado na Universidade, eu digo que realmente me formei pelo clube de Aikido da Universidade Meiji, e não como cientista politico e econômico da Universidade de Meiji. (risos)
Era um clube de Aikido fundado em 1955, na Universidade, pelo mestre Kobayashi quando ele era estudante universitário. Eu nada conhecia sobre Aikido ate eu terminar o ginásio. Neste tempo Aikido não era uma arte marcial popular. Eu não tinha visto publicação alguma sobre Aikido, mas talvez tivessem algumas. Na primeira vez que vi Aikido durante uma demonstração introdutória de iniciantes de Karate Shorinji Kempo e Aikido. Foi nessa ocasião que o Aikido atraiu meu coração.
AikiNews: E verdade que o mestre Kobayashi era o instrutor de Aikido na Universidade Meiji quando era jovem?
Igarashi: Sim, o mestre Kobayashi e exatamente 10 anos mais velho do que eu e com uma energia abundante. Ainda que mais novo ele não era cheio de agressividade, conversando com seus alunos de vários anos, eles disseram que ele costumava ser muito agressivo e bruto. De qualquer forma eu treinava 6 dias por semana, fora os domingos, por duas horas intensas por dia. A hierarquia entre o mestre e seus estudantes era bem severa.
AikiNews: Que aspecto do Aikido mais lhe atraiu?
Igarashi: Por exemplo, no Judo a pessoa que e menor jamais vencera uma pessoa maior. Contudo, no Aikido havia algo além do que o tamanho de seu corpo. Se observar o mestre Kobayashi e eu notara que somos, ambos, pessoas pequenas. Não apenas o mestre Kobayashi era pequeno, instrutor como mestre Koichi Tohei, o mestre Kisshomaru Ueshiba e outros professores naquele tempo eram pequenos também. Apesar de seus corpos serem pequenos, quando colocavam seus quimonos (aikido-gi) eles pareciam maiores do que realmente eram. Professores do meu tamanho eram bem vigorosos, o que me impressionava. Outro aspecto que me atraiu para o Aikido foi o fato de não haverem competições como no Judo. Se houver uma palavra para descrever o Aikido, esta, a meu ver, seria "lazer". Eu estava interessado em como criar, dominar e usar o Ki. Aikido tem um misticismo que o Judo não possui o que me atraiu para ele. Quando era estudante tive a oportunidade de assistir aulas de diversos sensei. Hoje, a maioria destes professores espalhou-se para vários países em todo mundo. Antes, para atender a Universidade Meiji, havia um estudante senior, era Asai Sensei, todavia ele foi ensinar Aikido na Alemanha em tempo integral. Ele era 4 anos mais antigo do que eu, então quando eu comecei ele já era graduado. Perdi contato com ele.
AikiNews: O-sensei (Fundador do Aikido) estava vivo naquela época?
Igarashi: Sim, eu o vi várias vezes enquanto ele treinava. Waka-sensei (atual Doshu) [nt: Kisshomaru Ueshiba] era incrível, mas O-sensei era inacreditável. Eu achava que ele era um deus. Ele tinha uma presença divina que o envolvia. Quando O-sensei entrava no dojo, você podia ouvir alguém gritar "Pare" e batia palma, então os estudantes ficavam em seiza e lhes davam boas vindas. Em nossa frente, ele projetava um uchideshi (Aluno interno) e nos contava estórias filosóficas.
AikiNews: Você já foi projetado por O Sensei?
Igarashi: Não, eu não fui e isso e realmente frustrante. Se eu soubesse que faria disso uma carreira eu teria tomado a iniciativa de ser projetado mesmo que para isso tivesse que me jogar sobre ele.
Você esta me perguntando sobre suas técnicas?
Seus movimentos eram feitos de forma que parecia não ter contato quando eles eram projetados, como no Irimi Nague. Era realmente raro ver professores que me projetavam ser projetados por ele.
AikiNews: Você tem alguma outra lembrança de quando você era estudante no Aikido Clube?
Igarashi: Eu me lembro dos acampamentos de Aikido, que eram árduos, mas emocionantes. Metade do tempo nestes acampamentos era treinando com pesos e corrida. Eu acho que eles faziam isso para afastar alguns estudantes, pois as aulas eram muito cheias. Treino pesado e duro.
AikiNews: E as suas demonstrações na Universidade?
Eu sempre usava uma espada de verdade para apresentar as técnicas de tachidori. Hoje, quando penso nisso me da arrepios. Hoje, eu nem mesmo cogito fazer isso novamente. Isso e muito assustador. E legal ser jovem e sem medos, né?
No meu terceiro ano de Universidade eu comecei a treinar Iai Do (esgrima japonesa) e Jodo (bastão contra espada) próximo a Universidade. Depois de treinar Judo e varias outras artes marciais eu compreendi a grandeza do Aikido.
- Vivendo no Kobayashi dojo.
AikiNews: Então, você começou a trabalhar apos a Universidade?
Igarashi: Sim, eu comecei a trabalhar como editor em uma editora especializada em tópicos sobre engenharia. Em meados dos anos 60 o crescimento da economia japonesa me forcou a trabalhar dia e noite, tornando impossível praticar Aikido por um tempo. Eu podia observar eventos especiais no dojo como etsunen-geiko (passagem do Ano e treino).
Apos 5 anos de trabalho, eu comecei a questionar se aquele ritmo de vida era o melhor para mim.
Eu era muito aplicado ao trabalho de modo que eu não tinha nenhum tempo livre. Eu sabia que isso não era o melhor para mim, mais pensei eu ainda era jovem e precisava explorar novas possibilidades.
Como resultado, eu deixei meu trabalho e decidi exercer o Aikido em um nível mais serio.
Eu então pedi ao mestre Kobayashi, no jantar de inauguração do Tokorozawa dojo, que ele permitisse que eu me tornasse um uchideshi (aluno interno).
AikiNews: Então, foi um uchideshi?
Igarashi: Não, um penetra!! (risos). Apos trabalhar por 5 anos eu tinha conseguido economizar o suficiente para curtir a vida por, no mínimo, 2 anos sem trabalhar. Então pedi ao mestre Kobayashi para ser aceito em seu dojo. O Tokorozawa dojo abriu em novembro de 1972 e eu tinha planejado em viver la. No entanto, eu tive a oportunidade de ficar no Kodaira dojo onde o mestre Kobayashi residia. Mudei-me em 1º de Janeiro de 1973. Claro que paguei pelas minhas despesas de moradia e treino.
Hoje em dia, jovens estudantes vem com frequência me perguntar quanto eu pagava, e quanto eles pagarão para se tornarem uchideshi. Eles ficam normalmente ficam chocados em saber que os alunos tem que pagar para o mestre. Isto e uma coisa natural!
A editora em que trabalhei permitiu que eu trabalhasse em meus horários livres; isto me deu a oportunidade de trabalhar durante o dia e voltar ao dojo a noite.
Em 1973, Bruce Lee lançou um filme bombástico que iniciou o "Boom" das artes marciais. O mestre Kobayashi estava extremamente ocupado, e como resultado eu fui intimado pelo mestre Kobayashi perguntando, "O que você quer fazer? Você quer se tornar um instrutor profissional?". Eu estava em uma situação onde eu poderia ter o Aikido como uma carreira, mas eu estava preocupado sobre a segurança deste trabalho como instrutor de Aikido. Como "plano B", então, entrei em uma escola de acupuntura. Em 3 anos obtive minha licença de acupunturista, ate hoje não tive que usa-la, mas sinto que me beneficiou. Os pontos de pressão e meridianos que aprendi podem ser utilizados no Aikido.
Quando o Kobayashi Dojos se expandiu para diferentes locais, eu comecei a ensinar. A experiencia que tive vivendo com o mestre Kobayashi, fazendo coisas juntos como comer, beber e conversar com ele ate o amanhecer foi magnifico.
O mestre Kobayashi disse que com cada refeição sempre vem um drink. (Noites intermináveis de aulas teóricas! - Nota do tradutor). Estou certo que fui um embaraço para a esposa do mestre. Este estilo de vida continuou ate meu casamento em 1976.
- Ensinando na Europa
AikiNews: Então em 1978, você ensinou na Europa?
Igarashi: Sim, o sensei Toshikazu Ichimura me convidou para ensinar na Suíça, Finlândia e próximo as terras Escandinavas. Antes de deixar o Japão, o sensei Kobayashi me aconselhou sobre como relaxar quando ensinar pela primeira vez em outros países, sua sugestão foi ficar em seiza, cumprimentar e olhar no rosto de cada estudante de um canto da sala ao outro. Eu também deveria começar com suwari-waza para ushiro Waza. Eu achei o que ele me deu um bom conselho, que funciona. No inicio, quando os estudantes estavam sentados, eu não percebi o quanto eram grandes, ate que se levantavam e eu não conseguia ver a parede dos fundos. Pensei que estivesse encrencado (risos) e entendi a razão de começar as aulas com suwari-waza. Eu percebi que estudantes estrangeiros são muito sérios e respeitadores. Eles eram realmente entusiasmados e eu notei que eram bem educados com relação ao Aikido e O-sensei. Retornei ao Japão apos viajar pelas Terras Escandinavas por um ano.
AikiNews: Você notou alguma diferença quando retornou ao Japão?
Igarashi: Provavelmente minha confiança e minha forma de ensinar tenha melhorado. Como não conseguia me comunicar com meu inglês quebrado, tive que achar um jeito diferente de ensinar usando gestos e acoes. Acredito que minha forma de ensinar melhorou porque eu tive que pensar em formas diferentes para as pessoas entenderem melhor. O mestre Kobayashi também tem um estilo próprio de ensinar e hoje em dia todo ano eu viajo para Escandinávia duas vezes por ano.
AikiNews: Muito obrigado por seu tempo. Eu gostaria de fazer uma ultima pergunta. Que benefícios você tem adquirido praticando Aikido?
Igarashi: Os benefícios? Sou quem sou hoje, gracas ao Aikido. Tudo devido ao Aikido!
Eu não tinha intenções de me tornar um instrutor, mas, depois de protelar por muitos anos, em 1983, eu abri meu próprio dojo. Sinto que não me esforcei muito para ser quem sou atualmente, mas tudo esteve caminhando perfeitamente. Atualmente eu continuo viajando para Escandinávia, Áustria, Canada, Etc. Mas tendo 54 anos, viajar tem me desgastado e tenho pensado em diminuir essas viagens. O sensei Asai me disse que e um privilegio ser convidado, e que se eu desagradasse, poderia não ser mais convidado. Eu continuo me esforçando para ensinar, porque eu preciso ensinar em outros países. Se eu não tivesse mais nada para ensinar aos estudantes, me sentiria inseguro, então eu pratico também. Ate que eu diga que não tenho mais nada a oferecer, continuarei trabalhando.