A Continuidade da tradição
Tendo discutido o lugar e o papel significante dos alunos mais jovens e mulheres praticantes, não quero encerrar este capítulo sem mencionar as inúmeras pessoas do passado que preservam a continuidade da tradição do Aikido.
Foi em 1931 que o Fundador, então com 48 anos de idade, estabeleceu o dojo central permanente do Aikido, uma arte que foi gradualmente formulada durante a década de 20. Esse primeiro honbu-dojo de 80 tatâmis situava-se no mesmo local do atual honbu-dojo, em Tóquio. Agora, 50 anos se passaram. Para uma pessoa que cresceu com o Fundador, tendo-o como professor e pai, 50 anos parecem um tempo muito curto e, no entanto, é tão longo. Outras vezes, penso que meio século é um tempo tão longo e, no entanto, é muito, muito curto.
Suas realizações enchem meu coração com orgulho e satisfação, mas também quero lembrar e apresentar meus respeitos a todos os companheiros praticantes e colaboradores da arte durante os últimos 50 a 60 anos, que contribuíram para o crescimento do Aikido mas que não estão mais conosco. Minha gratidão vai, também, a todos que estiveram associados ao Aikido desde antes da II Guerra Mundial, e que ainda continuam a aconselhar, encorajar e nos dar apoio de todas as maneiras possíveis.
Entre as pessoas das quais me lembro estão aquelas que viveram juntas na mesma casa que o Fundador como uchideshi, ou discípulos diretos, e receberam orientação tanto a nível pessoal quanto profissional. Havia muitos alunos que não eram uchideshi, mas mesmo assim estudaram com o Fundador Ueshiba e se dedicaram inteiramente ao caminho do Aikido. Tampouco deveríamos nos esquecer dos líderes na sociedade que, por um profundo respeito e afeição pelo Fundador, deram a ele apoio moral e material para desenvolver seu novo Budô. E há muitos outros aos quais somos gratos por seus papéis em manter e ajudar a expansão do Aikido. Isso inclui pessoas com quem passei muitos anos a treinar sob a orientação do Fundador, aquelas que foram pioneiras no estabelecimento de academias no Japão e no exterior, e aquelas que, após a morte do fundador, ofereceram sua generosa assistência para dar continuidade à tradição. O espaço não me permite reconhecer nominalmente cada um, mas à medida que me recordo de seus nomes e feições, o meio século de história do Aikido passa pela minha mente como se tivesse ocorrido ontem.
Certos pontos culminantes se sobressaíram nessa história. Havia o dojo do Inferno, um apelido usado por causa de alunos que eram fortes e poderosos, por seus próprios méritos, e que se juntaram ao redor da academia do fundador; a paixão do fundador em difundir o Aikido, que o levou às suas aventuras no interior da Mongólia; o período do seu retiro em Iwama, onde está localizado o Ermida aiki, e onde ele aspirava unir os objetivos do Aikido com uma vida dedicada a agricultura; os anos que imediatamente seguiram a II Guerra Mundial, quando o Aikido, junto com outras artes marciais, foi proscrito pela lei, e um grupo de discípulos se reuniu a sua volta e jurou solenemente manter acesas as chamas do Aikido. Então, em 9 de fevereiro de 1948, a alegria da aprovação oficial do governo em instituir o Aikikai como organização sem fins lucrativos, deu início a um novo capítulo em nossa história.
Relembrar esses eventos e personalidades é lembrar momentos de desalento e celebração, de tristeza e alegria. Mas meu desejo é que eles não permaneçam meramente como uma reminiscência pessoal, inacessível aos praticantes do Aikido que hoje desfrutam os benefícios do passado. Não devemos nunca esquecer as contribuições, os sacrifícios e a dedicação dos homens e mulheres que fizeram do Aikido o que ele é hoje. Uma das nossas tarefas é transmitir às gerações posteriores as fases evolutivas do Aikido: o período de fundação, de desenvolvimento, de agitação, de retirada e o período de um novo começo.
Contando que tais lembranças permaneçam vivas, elas nos lembrarão de que o Aikido não surgiu repentinamente do nada. Ele é um produto de uma longa cadeia de eventos, a começar com o Fundador e seus primeiros discípulos, cujo legado foi herdado pelos que hoje praticam o Aikido. Recordando esse período de mais de meio século, nós vemos membros da segunda, terceira ou mesmo quarta geração abraçando o Aikido. Realmente nós nos tornamos uma grande e extensa família trabalhando juntos pelo mesmo objetivo, e tendo o Fundador Ueshiba como guia ancestral.
Felizmente, muitos alunos do Aikido são totalmente conscientes de nossa rica herança, e não há necessidade para mim de lembrá-los. Isso é muito evidente quando vejo grupos de alunos reunidos para ouvir instrutores recontando histórias sobre o Fundador, baseadas em conhecimento direto ou indireto. Em uma atmosfera de jovialidade, a história do Aikido está sendo transmitida natural e espontaneamente às gerações mais novas. Na prática diária, entre sessões de rigoroso treinamento, tais diálogos inspiram camaradagem e amizade. Isso pode ser uma característica única ao Aikido, mas inconscientemente o tipo de troca que o Fundador gostava de ter com seus alunos está sendo restabelecido, e o efeito é cultivar o sentido da história.
Tem-se referido ao Aikido como Budô que une jovens e velhos, o juvenil e o maduro. Transcendendo as diferenças de idade e sexo, crianças, adultos, homens e mulheres praticam e incentivam-se mutuamente no treinamento. Isso contrasta admiravelmente com aqueles budôs nos quais os tipos jovens, fortes e másculos parecem predominar. Em parte, isso é devido ao fato de que o Aikido deprecia todas as formas de torneios competitivos, onde força física é o mais importante e, ao mesmo tempo, empenha-se em treinos balanceados da mente e do corpo. Cada grupo de praticantes do Aikido, conforme sua faixa etária, tem seu modo respectivo de alcançar a unidade do ki-mente-corpo, mas os grupos podem mesclar-se e aprender uns com os outros.
Numa atmosfera de treinamento destituída de distinções de idade ou sexo, cresce a comunicação e o respeito mútuo. As crianças aspiram a alcançar o nível dos jovens, os jovens tentam igualar-se ao domínio do ki dos adultos, e os adultos respeitam a perspectiva e os movimentos fluentes dos mais velhos. O reverso é também verdadeiro. Os mais velhos são estimulados pelo vigor dos adultos mais novos, estes absorvem energia dos jovens, que por sua vez são lembrados da mente principiante dos crianças com sua abertura e intensidade. De um intercâmbio circular como esse, cresce o poder nascido da atividade harmoniosa, que leva igualmente a um senso de adequação e etiqueta baseado no respeito mútuo.
Concluindo, podemos dizer que o Aikido parece ter uma profundidade e amplitude raramente vistas no Budô. Isso não pode ser senão o resultado da ênfase no amor e na harmonia acentuados pelo Fundador ao longo de sua vida. Nossa tarefa, então, é a prática diária constante, mantendo sempre em mente a centralidade do amor e da harmonia.