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Aikido: Minha Jornada Marcial

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Fábio Silva Costa

Nem sempre acontece aquilo que queremos ou que planejamos, mas sempre acontece aquilo que, de um jeito ou de outro, precisamos.

Essa foi a primeira frase de efeito que ouvi no meu primeiro dia de treino. Fazia um lanche na pequena lanchonete da academia, poucos instantes antes de subir para o vestiário e pôr o quimono e, na hora, pareceu-me, apenas e tão-somente, uma frase de fundo místico e sem muito sentido lógico.

Hoje, entendo melhor o seu significado.

Minha apresentação ao Aikido se deu, em verdade, anos antes de me matricular na academia.

Em certo sentido, pode-se dizer que devo a médicos incompetentes e a um professor de Educação Física imprudente o meu ingresso no Aikido. Como assim ? Bem, logo após meu ingresso na universidade, fui intimado a comparecer a algo a que havia me furtado ao longo dos meus anos de colégio: aulas de educação física. Na primeira aula, ciente do meu (des)preparo físico, o professor tomou a decisão mais óbvia para sua qualificação: despejou em mim a maior quantidade possível de exercícios de alto impacto. O previsível imprevisto aconteceu, ou seja, lesões de toda ordem, em quase todas as partes do meu corpo. Detalhe especial para os dois pulsos, especificamente o esquerdo, cuja dor era insuportável. Comentário do professor: “Vai passar...”. Não tendo passado de imediato, larguei as aulas daquela disciplina – e, por outras razões, aquela universidade. Dera eu que as dores em ambos os pulsos, principalmente no esquerdo, também tivessem ficado para trás e me largado. Não foi o que aconteceu. Recorri a um ortopedista que, sem pedir nenhum exame, diagnosticou tendinite e prescreveu uma pomada. Não bastou. Retornei, obtive o mesmo diagnóstico e a mesma prescrição. Mesmo efeito. Procurei outro médico, e salvo pelas sessões de fisioterapia, nada de novo. Fiquei com as dores sob controle, mas apenas por um tempo. Sem progresso real, agi como um bom ocidental: troquei de médico para ouvir, fazer e deixar de fazer as mesmas coisas dos demais. Por fim, a término de 8 anos, com o quarto ortopedista, houve a diferença: eu não tinha tendinite mas, sim, uma fratura que havia calcificado. Não havia cura para aquela dor torturante e diária; apenas paliativos.

Na mesma semana, li um artigo em um jornal local sobre essa “nova” arte marcial. A matéria apresentava o professor e a academia, e depoimentos de alguns praticantes que mais tarde seriam meus colegas de dojo. “Suavidade”, “eficiência” e “respeito” foram três Ideias que ficaram da leitura daquela reportagem, e isso me chamou a atenção. Sempre vi nas artes marciais uma salada de sangue, brutalidade e competição, o que, paradoxalmente, me atraía e me mantinha afastado delas. Sentia-me, desde criança, fascinado pelo assunto. Agora, Arte Marcial que é suave e, ao mesmo tempo, eficiente, além de manter o respeito ao próximo ? Bem, isso era diferente de tudo o que eu já tinha visto nos filmes e nos noticiários, tanto os desportivos quanto os policiais.

Guiado por curiosidade, fui à academia, a mais tradicional e respeitada no ramo das artes marciais de todo o Estado do Pará. Constatei, de saída, que o ambiente entre os praticantes era de fraternidade pura, “o clima” era o melhor possível. Ao término de pouco mais de uma hora e meia, fui conversar com o professor. Perguntado sobre o que achara, respondi-lhe que havia gostado do que vira, mas que infelizmente era pouco provável que um dia viesse a me unir ao grupo. “Por quê ?”, perguntou-me, surpreso, o professor. Respondi falando a respeito do meu pulso esquerdo, cuja dor limitava meus movimentos e que, sem dúvida, não aguentaria um décimo daquelas torções e tudo mais. Pois bem, eis que o professor lançou o desafio: o de retornar na próxima aula. Retornei. Em dois meses, a dor não mais existia, e havia recuperado os movimentos. E assim comecei no Aikido.

Bem, só por aí já fica evidente a boa interferência no Aikido na minha vida. No entanto, ao escrever este artigo – inicialmente sobre como iniciei nesta Arte Marcial – várias coisas vieram a minha mente. Em verdade, ao pensar que postura, respiração, equilíbrio emocional foram coisas que melhoraram no meu cotidiano com o Aikido, percebo o quanto ele mudou minha vida. Treino após treino, aprendo algo sobre meu corpo e meu caráter. Faço amigos e me fortaleço. Descobri que a dor que eu sentia no pulso, que me limitava no dia a dia e que me fazia chorar quieto para não chamar a atenção, era apenas uma dentre muitas outras que eu tinha e ainda tenho. E, de todas, era uma das menores. Após quase dois anos e meio, ouso afirmar que essa tem sido uma espécie de “jornada” pessoal em busca de... Bem, a jornada ainda não terminou! E certamente, creio eu, não terminará.

Mas, tudo bem! De fato, as coisas nem sempre estão sobre nosso controle, tanto que este testemunho não era bem o que eu queria ou que planejava escrever quando me propus a dar meu depoimento sobre minha experiência pessoal no Aikido. O fato é que assim tem sido o meu caminho no Aikido, desde que comecei. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Passei por várias situações, das inevitáveis piadas e gozações que os outros fazem com o nome “Aikido”, às dúvidas sobre a sua eficácia em situação de perigo real, passando pelos diversos desafios com os quais todo aikidoísta se depara, dos diários (aprender e dominar técnicas), aos ocasionais (preguiça, cansaço, problemas pessoais e profissionais...), passando pelos periódicos (como o exames de faixa). Em verdade, meu envolvimento com o Aikido tem sido um agradável e lúdico processo de autoconhecimento, que entrou em minha vida sem que eu quisesse ou planejasse, mas que... eu precisava. Bem, reflexões à parte, pelo menos o meu professor de Educação Física tinha razão em uma coisa: a dor insuportável que eu sentia, ela passou...


Há 13 anos 2 meses

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