Ser Faixa Preta....

O que realmente significa ser um faixa-preta?
Por Reverendo Kensho Furuya (1948-2007)

O reverendo Kensho Furuya era 6º Dan pelo Hombu Dojo de Aikido e 6º Dan Kyoshi em Muso Shinden Ryu Iaido, tendo mais de 47 anos de experiência em artes marciais. Furuya Sensei graduou-se em Estudos Asiáticos na Universidade do Sul da Califórnia e na Universidade de Harvard. Ele treinou no Hombu Dojo em 1969 com o Doshu Kishomaru Ueshiba e estabeleceu seu próprio Dojo em 1974.

Furuya Sensei foi ordenado monge Zen em 1988 e recebeu a honra de falar à Organização das Nações Unidas. Ele é autor de muitos livros sobre artes marciais e compareceu a muitos programas de televisão falando sobre o assunto. Ele é o autor do livro Kodo, Ancient Ways e da aclamada série de vídeo A Arte do Aikido, em nove volumes.
Mestre Furuya faleceu no dojo, devido a AVC fatal, em 06 de Março de 2007, quando ministrava a última aula noturna no Aikido Center of Los Angeles.

“Seus momentos finais foram em seu amado dojo, sorrindo ao lado de seus leais estudantes. Para um soldado, o melhor lugar para morrer é no campo de batalha e melhor ainda, com um sorriso na face”. Epitáfio por Sifu Adam Hsu

Introdução

Em virtude da popularidade desta coluna, recebo correspondências provenientes de todo o país. A questão mais comumente feita é “quanto tempo demora para se atingir o grau de faixa-preta?”. Eu não sei se essa questão é respondida por outras escolas, mas meus alunos sabem que fazer tal pergunta em meu dojo faria com que eles tivessem que treinar muitos anos a mais para poder obtê-la do que se não a tivessem feito, o que seria um desastre. Isso porque eu sempre advirto meus alunos para não fazerem tal pergunta, pois a resposta que ouvirão pode não ser a que gostariam de ouvir. Muitas pessoas ficariam felizes se eu lhes dissesse que seriam precisos apenas dois ou três anos para se tornarem faixas-pretas, mas infelizmente as coisas não funcionam assim. E apesar de imaginar que muitos não ficarão felizes com minha resposta, creio que a noção geral sobre “o que é uma faixa-preta” deve ser desmistificada tanto quanto possível. Esse é um assunto que se torna muito polêmico ao ser discutido da maneira em que pretendo fazê-lo.

Como você se torna um faixa-preta? Você encontra um professor competente e uma boa escola, começa seu treinamento e trabalha duro para isso. Um dia, de forma inesperada, isso acontece. Não é fácil, mas é algo que traz bastante satisfação. Pode levar um ano ou mesmo dez anos e pode mesmo ocorrer que nunca se atinja a faixa-preta. Quando você percebe que o grau de faixa-preta não é mais importante do que a prática em si, você provavelmente está se aproximando do grau de faixa-preta. Quando você percebe que não importa quanto tempo ou quão duramente você treina, de que há uma vida inteira de estudo e de treinamento esperando por você até o dia de sua morte, você provavelmente está bem próximo de se tornar um faixa-preta.

Se, em qualquer nível de treinamento em que você se encontre, você acredita que “merece” uma faixa-preta, ou se você pensa que não é “bom o bastante” para ser um faixa-preta, você provavelmente estará equivocado e terá um longo caminho até se tornar um. Treinar com afinco, ser humilde, não tentar “aparecer”, seja para seu professor ou para outros alunos, não reclamar sobre qualquer tarefa que tenha lhe sido confiada e procurar fazer o seu melhor em tudo na sua vida. É isso que significa ser um faixa-preta. Ter confiança em excesso, ficar exibindo suas habilidades, ser competitivo, olhar para os outros com desdém,  mostrar falta de respeito, e escolher entre aquilo que você pode e o que você não pode fazer por acreditar que certas atribuições irão diminuir sua dignidade, tudo isso caracteriza um estudante que nunca chegará a faixa-preta. O que se usa ao redor da cintura é simplesmente uma mercadoria que pode ser comprada por um punhado de dólares em uma loja de artigos para artes marciais. A real faixa-preta, usada por um verdadeiro faixa-preta, é a faixa-branca do iniciante, a qual se torna preta em virtude de seu sangue e suor.

Forma de treinamento

O primeiro nível de faixa-preta no Japão é chamado “shodan”. Essa palavra significa, literalmente, “primeiro nível”. Sho (primeiro) é um ideograma bastante interessante. Ele é composto por dois radicais significando “pano” e “faca”. Para fazer uma peça de roupa, você precisa primeiro cortar a forma dela no pano. A forma determina o estilo e a aparência do produto final. Se a forma está fora de proporção ou errada, as roupas feitas a partir dela parecerão feias e não se ajustarão perfeitamente. Da mesma forma, o treinamento inicial para atingir a faixa-preta é muito importante, pois ele determina como o praticante irá se tornar um faixa-preta.

Nos meus muitos anos como professor, notei que os estudantes que estão apenas preocupados em obter a faixa-preta ficam desencorajados rapidamente, assim que percebem que isso é mais difícil do que eles esperavam. Estudantes que estão apenas preocupados com a prática, sem se importar com faixas ou promoções, sempre obtêm bons resultados. Eles não são pressionados por objetivos superficiais ou irreais. Há uma estória famosa acerca de Yagyu Matajuro, o qual era membro do famoso clã Yagyu de espadachins no século XVII no Japão. Ele foi banido de casa por falta de talento e potencial, e passou a ser instruído pelo mestre-espadachim Tsukahara Bokuden, com o propósito de se tornar ele próprio um mestre da espada e reaver sua posição na família. Na entrevista inicial, Matajuro perguntou a Tsukahara Bokuden: “quanto tempo será necessário para que eu me torne um mestre da espada?”. Bokuden respondeu “Oh, cerca de cinco anos se você treinar com propósito”. “Mas e se eu treinar com o dobro de propósito, quanto tempo levará?” perguntou Matajuro. “Nesse caso, dez anos”, respondeu Bokuden.

Encontrando o foco

O que você deve ter em foco se você não está preocupado em se tornar um faixa-preta? É mais fácil dizer do que fazer, mas você deve focar sua energia no treinamento, pois se você pensa em concentrar suas energias em se tornar um faixa-preta, você está apenas brincando consigo próprio e isso acabará levando-o ao descontentamento.

Por outro lado, você pode simplesmente pensar “Eu não me importo com graduações”? Você pode simplesmente dizer a si mesmo que não está preocupado com o fato de que irá ou não alcançar a faixa-preta? Em outras palavras, você pode simplesmente concentrar suas energias em seu próprio treinamento, sem se preocupar com nada mais? Você consegue realmente pensar na faixa como algo feito apenas para segurar suas calças?

Você deve ter em mente que, uma vez que domine todas as exigências necessárias, o número adequado de técnicas, todas as formas exigidas e o número mínimo de horas de treinamento previstas, você pode não estar, ainda assim, apto a obter a faixa-preta. A obtenção da faixa-preta não é algo relacionado apenas a quantidades, a algo que possa ser objetivamente medido, tal como comprar feijões num supermercado. Sua faixa-preta tem a ver com você, como pessoa. A como você se conduz dentro e fora do dojo, sua atitude para com seu professor e companheiros, seus objetivos de vida, como você encara os obstáculos que lhe são apresentados e em como persevera em seu treinamento: essas sim, são condições importantes para que você seja um faixa-preta. Ao mesmo tempo, você se torna um modelo para outros estudantes e eventualmente alcança o grau de professor ou de instrutor-assistente. No dojo, suas responsabilidades são maiores do que as de alunos normais e você passa a ser bem mais exigido.

Adquirindo o foco

Como devemos nos concentrar em nosso treinamento? Um treinamento de sucesso significa, em grande escala, que nós olhamos para aquilo que fazemos com um ponto-de-vista realístico e razoável, e não de forma fantasiosa, a qual nos levará apenas à desilusão. Você quer ser um expert em artes marciais como uma forma de melhorar a si próprio e à sua vida, ou você está apenas motivado pelos filmes de mocinho e bandido? Sua prática decore de um desejo de se tornar uma pessoa melhor, ou você simplesmente quer imitar os superstars dos filmes de artes marciais? Embora artistas marciais experientes possam rir disso, é impressionante o número de estudantes que se aproximam das artes marciais querendo ser como Chuck Norris ou Steven Segal. Mas esses astros são o que são fruto de seus próprios esforços, assim como você é você mesmo. Nós podemos ter nossos modelos, nossos heróis e mesmo nossos sonhos, mas temos que separar nossas fantasias da realidade, se queremos que nosso treinamento tenha significado real e seja bem sucedido.

Realidade

O treinamento não tem a ver com graus ou faixas-pretas, troféus ou medalhas. As artes marciais não são simplesmente uma forma de externar as nossas fantasias. Elas tem a ver com vida ou morte. Não apenas com a forma com a qual nós nos protegemos em uma situação crítica e letal, mas do mesmo modo em como nós protegemos as vidas dos outros. Você não pode ser outra pessoa, seja ela um astro de cinema, um grande professor ou um multimilionário. Você precisa se tornar você mesmo – encontrar o seu verdadeiro “eu”. Assim como alguém pode sonhar em se tornar James Dean, Bruce Lee ou Donald Trump, essa pessoa pode se contentar em ser apenas ela mesma. Quando alguém decide ser ela própria cem por cento do tempo, ela se torna iluminada pelo seu verdadeiro “eu”. A maioria das pessoas vive apenas cinqüenta por cento, ou talvez oitenta por cento, de suas próprias vidas e nunca sabem quem de fato elas são. Um artista marcial vive sua vida o tempo todo e se torna impecável. É isso que o verdadeiro detentor de uma faixa-preta precisa descobrir acerca de si mesmo. Ele não é outro que não ele mesmo, e sua prática leva à explicitar sua natureza e seu verdadeiro “eu”, como ele de fato é. Essa é a essência do treinamento das artes marciais.

Obtendo sua faixa-preta

Pensando acerca de perder sua faixa-preta, e não de ganhá-la, Sawaki Kodo, um mestre Zen, costumava dizer “ganhar é sofrer, perder é iluminar-se”.

Se alguém me perguntasse a diferença entre os artistas marciais do passado e os de hoje, eu provavelmente responderia a partir dessa afirmação. Os artistas marciais do passado encaravam seu treinamento como perda: eles abriam mão de tudo por sua arte e por sua prática. Eles deixavam suas famílias, empregos, segurança, fama, dinheiro, enfim, tudo, em prol das artes marciais. Hoje, nós só pensamos em ganhar: eu quero ganhar isso, eu quero obter aquilo. Nós queremos praticar artes marciais, mas também queremos um carro bonito, dinheiro, fama, telefones celulares e tudo o mais que se possa ter.

Shakyamuni Buddha deu seu reino, seus palácios, uma bela esposa e tudo o mais que possuía para finalmente alcançar a iluminação. O primeiro aluno de Bodhidharma, considerado o fundador do Kung fu Shaolim, cortou seu braço esquerdo para estudar com seu professor. Nós não precisamos tomar tais medidas drásticas hoje em dia, mas não podemos esquecer o espírito e a determinação dos grandes mestres do passado. Nós precisamos ter em mente que são exigidos sacrifícios em nossas vidas de modo a prosseguir em nosso treinamento. Quando o estudante começa a olhar seu treinamento como uma forma de perda, ao invés de ganho, ele começa a se aproximar mais do espírito da maestria, e verdadeiramente se torna um faixa-preta. Apenas quando ele finalmente abre mão de qualquer pensamento sobre graus, faixas, troféus, fama, dinheiro e da própria maestria, ele consegue obter aquilo que realmente é importante no treinamento. Seja humilde, seja gentil. Preocupe-se com os outros e coloque a todos antes de si mesmo. Estudar artes marciais é o mesmo que estudar a si próprio – seu verdadeiro “eu”. Não tem nada a ver com faixas.

Um grande mestre Zen uma vez disse: “Estudar a si mesmo e esquecer-se de si próprio. Esquecer-se de si mesmo é compreender todas as demais coisas”.

Editado por K. W. Pang de “Martial Arts Training” (Julho, 1991)

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Tradução de Adriano Nóbrega- ITN-Brasil

7 anos 3 meses atrás