O lado negro da Força

Por que os Katás com espadas terminam em morte?

Não tem muito tempo eu estava ensinando iaido numa escola do segundo grau. Após uma hora de aula, um estudante me perguntou por que todos os katás terminam com um golpe de fatal.

Essa foi uma boa pergunta, uma pergunta que todo estudante de artes marciais deveria fazer. A resposta de cada um irá dizer sobre onde você está em seu treinamento, ou na sua vida.

Miyamoto Musashi deve ser um bom ponto de partida. No início de sua vida, o país estava em guerra e ele viu as artes marciais de uma forma muito prática. Ele usou suas habilidades para vencer muitos duelos, vários deles terminando com seus oponentes caindo mortos no chão. Por volta dos 30 anos ele parece ter parado de duelar, ou pelo menos parado de matar seus oponentes durante os duelos, e começado a pensar em quais as outras utilidades das artes marciais além de matar pessoas. A sua conclusão foi que as artes marciais eram capazes de tornar as pessoas iluminadas.Talvez ele estivesse certo.

Talvez ele se tornou adulto, afinal nós ficamos inevitavelmente céticos, menos idealistas e mais cientes de nossa mortalidade conforme envelhecemos.

Talvez seja tudo o que acontece quando “ficamos iluminados” pelas artes marciais, ou meditação, yoga ou qualquer outra coisa que diga tornar as pessoas melhores.

Talvez, mas as artes marciais tradicionais são claramente para fazer pessoas melhores, ao contrário de assassinos melhores. Eu digo artes tradicionais por fazer a distinção entre o treino militarizado e as artes marciais.

Entre aprender como matar para se tornar melhor na matança, ou aprender a matar para não matar. Enquanto escrevo isso me ocorre que a diferença não é absoluta.

Ambos os esquemas deixam claro que o estudante apenas matará em razão da circunstância, ou quando a situação pedir (diferente de lutar ou matar como uma reação instintiva, o que pode ser inapropriado para as circunstâncias), mas um esquema de treino objetivaria fazer o ato de matar mais real, mas desejado, o outro objetivaria fazer o treino menos propenso a isso.

Se as artes marciais são para criar oposição a lutar e matar, então porque esse foco em matar no katá com espada?

Eu tinha dito ao estudante que cada vez que ele fizesse chiburi - tirar o sangue da espada depois do corte final - ele deveria imaginar sangue, ossos e músculos saindo da espada e caindo no chão. Eu disse isso, pois acredito não ser plausível sacudir a espada sem entender a real intenção para isso. Aparentemente ele entendeu. Outro estudante perguntou se havia algum katá de defesa pessoal no iaido. Isso me espantou porque muitos estudantes treinam anos e alguns treinam nos níveis mais avançados do koryu antes que um dia que comecem a suspeitar que nem todo iaido é sobre defesa pessoal. A questão principal foi porque os katás com espada terminam com um golpe de fatal.

Minha resposta é dada em várias partes.

Primeiro eu usei a desculpa padrão e disse que nem todos katás terminam em morte. Por exemplo, no Jodo existem vários katás que terminam com o bastão simplesmente apontado para o olho do oponente e com ele recuando. Agora isso pode ser uma finalização formal para a prática e, mas na realidade seria um corpo morto no chão, mas alguns dos katás não necessariamente possuem golpes fatais no katá... a menos que você conte um pulso quebrado e um golpe no plexo solar como mortal. Claro que o golpe poderia ser mortal se o xifóide rompesse e perfurasse o fígado ou o golpe poderia ser na cabeça ou na ruptura na garganta, mas eles não são, enquanto em outro katá eles são.

Se mesmo um katá terminasse em morte, a questão seria legítima. O katá com espada quase invariavelmente termina com a morte de alguém, e é difícil imaginar alguém usando a kataná como uma ferramenta de controle. Isso é parecido com utilizar atualmente uma pistola policial como se fosse um bastão yawara (bastão pequeno para imobilização). Você saca a espada, ou a arma (revolver,pistola) e você já deu um longo passo em direção a um saco de carne no chão. A realidade da espada é que ela é feita para matar.

O que me remete a primeira explicação sobre por que os katás com espada terminam com um golpe fatal. Essa é a realidade da espada, elas são peças de metal longas e afiadas que não tem nenhum outro propósito a não ser cortar corpos. Elas podem ser utilizadas como abridores, chaves de fenda ou pás. Mas, elas são desenhadas para cortar e matar. É um fato que as espadas parecem legais nos vídeo games e nos filmes, você vê muitas espadas sacudindo e isso é muito glorioso.

Muitos estudantes vêm para as artes marciais procurando aprender como usar estas espadas “legais”, “fantasiosas” é por isso que eu digo para os garotos imaginarem sangue e ossos na espada enquanto eles as limpam.

Claro que as espadas nos filmes parecem legais, mas nos filmes as pessoas saem andando com “carnes voando”, eles absorvem mais de 25 socos indefensáveis na cabeça e continuam em pé, eles recebem várias balas no corpo e continuam bem, eles sobrevivem a lutas com espadas.

Mas a realidade é que pessoas não sobrevivem a este tipo de estrago, a verdade é que as espadas matam.

Existem “escolas de espada” por aí que se parecem com fitas de treinamento, mas o que eu ensino não. Isso é chato, sem brilho e bem parecido com ver um filme com as estrelas de Hollywood. A realidade é bem outra!

Katás com espada terminam em morte porque nos temos que lembrar o que as espadas fazem. Quando você esquece isso, você esquece da razão de sacudir a espada...

E você pode esquecer que o gume é afiado e acabar perdendo um dedo....

A segunda razão para os Katás com espada terminarem em morte é exatamente a mesma razão que os policiais, ou qualquer outra pessoa, treinam o uso das armas de fogo para acertar o centro do alvo. A arma é desenhada para matar, não para soprar ou conter ou debilitar. Tentar acertar uma perna ou um braço com uma arma de fogo ou uma espada é como ter matado. Eles são difíceis de acertar. O aspecto da contenção destas armas vem antes que elas sejam sacadas. Elas nunca devem estar em mãos se você não tem a intenção de matar seu oponente.

Algumas pessoas dizem que sacar a arma, ou a espada, é uma boa forma de intimidação e que com isso você não tem a necessidade de usá-las, apenas gire-as. Bom, mas eu me pergunto quantas destas pessoas que pensam desta forma estão dispostas a ter uma espada com o gume cego ou uma arma descarregada para girar. Sacar sem ter intenção de matar não é inteligente. Isso pode ser um final feliz se a outra pessoa correr, mas a pessoa que saca a arma é melhor ter a intenção de matar ou poderá terminar morto.

A sétima técnica da escola de Koryu de Iaido representa cortar a cabeça fora de uma pessoa que esteja cometendo Seppuku (Ritual de suicídio). Não há nada de romântico neste Kata, sem fingir ser uma estrela de cinema, é um ato brutal e a sangue-frio de finalização da vida. Em algum lugar no passado obscuro eu li uma anotação de um dos últimos carrascos (executores) do Shogunato, que falou sobre este katá. Ele disse que há um engano e uma fantasia sobre deixar um pedaço de pele do pescoço para que a cabeça não saia rolasse. Após 5 ou 6 decapitações ele disse que o corpo do carrasco começa a lutar contra tirar as vidas. O cérebro pode querer, mas o corpo não consegue. Ele sentia um conflito mente e corpo. Então, era cortar logo e deixar as formalidades para lá. Apenas terminar o trabalho. Não acredita que o corpo pode ter uma vontade independente do cérebro? No museu nacional em Ottawa tem um filme mostrando os efeitos de um trauma de guerra que eu recomendo que veja com atenção, se você alguma vez tiver a chance.

E então nós finalmente chegamos ao que acredito é importante estudar como matar com a espada, porque os Katás com espada terminam em morte e porque os estudantes devem imaginar sangue no chão e na espada. Isso é para nos mostrar o ponto de vista do carrasco. Ele não usa mais com romance ou com técnicas fantasiosas ou para parecer “legal”. Não há nada de “legal” em matar, não obstante o que temos visto nos filmes ou ouvido por gangues de rappers “nas ruas”.

Mas por que estudar artes marciais afinal? Se não estamos “nas ruas” ou prestes a sermos atacados em nossas pacificas vizinhanças, para que precisamos aprender que matar não é romântico?

Isso é porque não temos tido guerras por um tempo. Por isso jaquetas camufladas e botas estão na moda, e os vídeos games, musicas e filmes fazem a violência parecer romântica. Isso por que temos uma geração de políticos no comando que nunca estiveram em uma guerra.

E os políticos mandam os jovens para a guerra. Países vão para a guerra enquanto eles esquecem o que é uma guerra, então a guerra se torna romântica. Quando a guerra é vista como uma forma de finalizar outra coisa além de matar um bando de gente, quando isso se torna uma forma de defender valores ou promover ideais, ou salvar alguém da opressão, então a guerra ocorrerá.

Pessoas irão morrer e a nova geração irá descobrir por ela mesma que ter uma espada brilhante por perto não era divertido, ou romântico ou “legal”. O político gostaria que você pensasse que a guerra é limpa, patriótica, útil, que corpos não voltam pra casa em caixas ou sacos, que você terá um uniforme brilhante, terá uma espada brilhante e os caras maus irão te reverenciar e se renderem ao seu esplendor. O político quer que você acredite não que saiba e sem a geração que sabe, eles podem fazer com que acredite nisso.

Precisamos ser lembrados que a guerra é sobre poder, dominação e comercio. E não sobre ideais e romances.

Precisamos lembrar que a espada é para matar.

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Tradução e adaptação de artigo de Kim Taylor
por Gustavo N. Santos

10 anos 2 meses atrás