Meu encontro com o Aikido

(omitido o nome da praticante, a pedido!)

Nunca gostei de relatos, pois ninguém sabe a importância, a intensidade que os fatos têm na vida das pessoas. A forma como são sentidos é muito particular, deve-se levar em consideração toda carga sociocultural de cada um, onde outras pessoas poderiam ser submetidas aos mesmos fatos e reagiriam de forma diferente.

Para muitas pessoas os medos e fragilidades são motivos para inércia, apatia. No meu caso são molas propulsoras, talvez por sentir muito medo do desconhecido e não admitir que esses sejam impeditivos para o meu crescimento.

Cheguei a Brasília para trabalhar em algo que acreditava, com a convicção que daria o melhor de mim para implementar um programa que lutei uma vida toda. Abri mão de estar perto da minha família e de relacionamentos, coisas que me foram muito caras, doloridas. Muitos apostaram que não duraria um mês nessa cidade, fiquei indignada com isso e foi um dos meus motivadores a enfrentar todos os desafios e a solidão que era cortante. Apesar do empenho a máquina parecia ser maior que minha capacidade, a cidade parecia maior e mais excludente do que tinham me avisado. Tudo leva ao isolamento. Comecei a trabalhar enlouquecidamente, entrava às oito horas da manhã e saia quando o cansaço me vencia, vivia para o trabalho.

A pesar do conforto odiava o hotel que estava, parecia que vivia em um mundo surreal, as pessoas sempre muito simpáticas, mas inatingíveis dentro de suas cascas. Eu descendente de italianos e espanhóis acostumada a beijos, abraços e onde toda ação tinha que ser manifestada com carinho, se não é porque estamos com algum problema, vivemos tudo intensamente desde as dores aos amores. Herança que não quero perder. Brasília fria em seus prédios de concreto, sem pessoas nas ruas, sem cumprimentos, impessoal e austera. Uma analogia ao militarismo: “Ame-a ou deixe-a”. Como não me dava motivos para amá-la, achei melhor conhecê-la. Comecei a sair mais, ia a teatros, shows, cinemas e toda a programação que me permitia.

Um dia no supermercado, desses enormes que abrem vinte e quatro horas, uma muvuca, gente pra todo lado, pessoas de todos os tipos, felizes, tristes, percebi que era horário de pico e quando de uma forma inesperada fui tomada por um temor terrível, comecei a suar frio e uma terrível sensação de desmaio. Deixei as compras no carrinho e sai com a sensação de que estava perdendo o controle sobre meu corpo e de que deveria sair dali o mais rápido possível. Fiquei assustadíssima com o acontecido, mas deixei de lado e continuei a minha vida. Até o dia em que fui a uma palestra, o local era totalmente fechado não tinha janelas e a ventilação era pequena, o ar estava bem saturado. O primeiro instinto foi vá embora, mas tinha que ficar, quando aquelas sensações voltaram a aparecer. Racionalmente tinha clareza do que estava acontecendo, meu corpo não respondia meus comandos, não conseguia nem levantar, tentava respirar compassadamente e nada. Foi quando uma pessoa conhecida me viu e perguntou se estava bem, estava pálida e suando muito, pedi que me retirasse dali e a sensação de temor voltou. Fui encaminhada ao pronto socorro do meu trabalho.

Passei por dois médicos, o primeiro disse que era stress não deu muita atenção e o outro disse que estava sendo vítima da doença do século: o “transtorno ou síndrome do pânico”, perguntei o que era e ele disse-me que a razão ainda era desconhecida e, portanto aberta a inúmeras hipóteses. Ele achava que a doença estava ligada ao aumento do stress patológico e grande dificuldade de adaptação e baixa habilidade que correspondiam a um aumento de ansiedade. Isso ficou gravado em minha memória. Deu-me muitos exemplos, e falou-me que não tinha cura e que teria que tomar remédios para o resto da vida. Do diagnóstico apresentado até achei que tinha muita das características apresentadas, mas a assumir isso e com medicações que sempre fui contra e fazer o tratamento apresentado, estava longe de minhas expectativas. Passei a procurar outros profissionais.

Fui a um médico conhecedor da área que me analisou, respondi um monte de questionários e constatou que era precipitado dizer que tinha a síndrome, mas que estava com características de stress, e que o diagnóstico parecia mais com claustrofobia do que outra coisa e que era recomendação médica fazer coisas prazerosas e relacionadas a minha afetividade. Isso foi um marco na vida em Brasília, passei a buscar atividades desestressantes e que não tinham nenhum vínculo ao meu trabalho.

Um dia conversando com um amigo sobre o assunto ele falou que o filho dele teria passado pelo mesmo problema e que tinha começado a praticar Aikido e hoje não tinha mais nenhum problema, muito pelo contrário, tinha desenvolvido um autocontrole fantástico e hoje estava superbem. Eu, uma completa desconhecedora de artes marciais e avessa a qualquer tipo de agressão, relutei, mas ele me contava com uma doçura que lhe era peculiar que me propus a conhecer melhor a técnica. Perguntei-lhe sobre as literaturas sobre o assunto e ele me disse para conhecer a arte não através de livros e que fosse até a “academia” Aizen, que era o local onde o filho dele tinha feito e as pessoas eram qualificadas. Apesar de medrosa, a curiosidade sempre foi um dos meus defeitos maiores, fiquei pensando nisso uma semana, quando resolvi e fui ao endereço indicado, fui em horário comercial, por imaginar uma academia tradicional, cheia de gente e não queria pegar muito movimento e ter liberdade de analisar tudo.

O local estava fechado, achei superestranho, fui até a loja lateral e perguntei ao gerente se ali que funcionava a academia e ele me disse que sim e que tinha horários específicos para a sua abertura. O homem viu a minha cara de espanto e comentou que era para voltar à noite que com certeza estaria aberta e que as pessoas eram pessoas de bem. Achei muito engraçado o comentário e retornei no horário. Quando subi as escadas, com uma vontade de sair correndo, encontrei uma pessoa superatenciosa, apesar de “aparentemente” tímida, respondeu todos os meus questionamentos, que foram muitos. Quando viu que não estava satisfeita com as respostas perguntou-me se não queria assistir a aula que estava acontecendo. Concordei e ele gentilmente subiu outro lance da escada comigo, me apresentou ao professor Sr. Lapa e ficou por alguns minutos me explicando sobre as técnicas. Achei interessante, apesar de ter ataques não era violenta como imaginava, lembrei-me dos movimentos de tai chi. Os alunos eram diferentes não aparentavam ser pessoas que praticavam artes marciais, ou seja, com cara de maus que só queriam dar porrada, preconceito meu, claro!

Fiquei até o final da aula, quando outros alunos começaram a chegar e me cumprimentar com muito respeito e atenção. O prof. Lapa terminou sua aula e veio conversar comigo e perguntou se não gostaria de participar de uma aula e comentei que tinha problemas com horário e ele sugeriu que assistisse a aula com o Sensei Santos que era “o melhor dos instrutores”. Quando fui apresentada ao Sensei Santos, fiquei acanhada, e ele me sorriu de uma forma tão acolhedora, que resolvi ficar para a assistir a aula dele.

Estava com uma sensação nova, um misto de curiosidade e alegria, fiquei pensando que poderia ser aquele ambiente, tocava Frank Sinatra, e todos pareciam dançar. Pensei é isso. Fui até a secretaria e falei com o moço simpático, que sempre me sorria e finalmente perguntei o seu nome e ele me disse que era Nilton, mas todos o conheciam como Sousa. Deu-me os horários e fui embora.

Apesar de ansiosa para a minha primeira aula com Sensei Santos, ao chegar fui muito bem recepcionada, só havia uma mulher, a Nazaré (NDV), pessoa de postura sóbria e de poucas palavras. Achei-a surpreendente, parecia ser muito boa no que fazia. Como uma adolescente frente ao seu primeiro amor não perdia nada, os meninos me davam a maior atenção e faziam todos os movimentos de forma lenta e explicativa. Apesar de estabanada e meio sem jeito, prestava atenção em todos os detalhes e estava adorando tudo menos o tal do rolamento, isso me tirava o sono, sentia-me muito limitada, pois só tinha “caído de cabeça” no trabalho e não no tatâmi. Sensei Santos que pessoa admirável! Sempre presente corpo e espírito, observava tudo e pedindo que tivesse muito cuidado, para que eu não machucasse o companheiro que estava emprestando o seu corpo para que eu aprendesse a técnica. O único problema é que sempre que quando o cumprimentava tinha vontade de abraçá-lo, mas ele sempre me cumprimentava com reverência oriental. Toda vez que ouvia Sensei Santos falar "mae ukemi", dava um frio na espinha. Todos me ajudavam, tentando passar como aprenderam a fazer rolamento, mas nada. Até que um dia apareceu um outro instrutor o Valdo, que viu a minha dificuldade e acho que comovido me chamou para ter aulas específicas de rolamento aos sábados. E descobri que não era única que sentia dificuldades, pois haviam outras pessoas que participavam dessas aulas. Foram ótimas!

Estudávamos o porquê do meu medo e ele observava cada movimento e me sugeria novos, com o tempo fui perdendo o medo e consegui fazer o rolamento. Fiquei muito feliz! O Prof. Valdo (apesar dele não gostar de ser chamado de professor) sempre falava que estava perfeito, claro que era pra me estimular, pois estava horrível.

O engraçado que mesmo com os pequenos avanços com o Prof. Valdo não conseguia fazer o rolamento nas aulas do Sensei Santos, não sei se era pelo número de alunos ou se era pela presença do Sensei que pra mim é muito forte. Mas numa quarta-feira na aula do Sensei Santos ele ficou muito bravo comigo por não fazer o rolamento e pela primeira vez gritou comigo, pronto paralisei e não consegui fazer mais nada. Percebi a decepção em seus olhos. Fiquei muito frustrada por não conseguir superar isso. Fui pra casa quase chorando e me maldizendo por não conseguir.

Sexta-feira dia todo de trabalho estressante, estava muito cansada, relutei em ir ao treino, mas como sabia que o Sensei Santos estaria viajando, não queria vê-lo se decepcionar comigo novamente e fui à aula obstinada a não desistir. Chegando lá o Frank era o instrutor, fiquei tranquila, mas não deu outra, após o aquecimento ouvi dizer: “mae ukemi”. Pensei é agora ou nunca, observei os mais graduados e sem pensar comecei a fazer o rolamento, quando terminei ouvi os meninos batendo palmas e percebi, no meio daquele misto de medo e felicidade, o carinho daquela turma em viver as minhas pequenas vitórias.

Pela primeira vez em Brasília me senti em casa. É isso, hoje o Aikido não passa mais pela minha vida, faz parte dela, assim como todas as pessoas que fazem parte do Aizen, pois a cada dia aprendo uma coisa nova, principalmente o fundamental: o processo de fortalecimento e flexibilidade para enfrentar meus desafios, meus medos e principalmente a não desistir.

5 anos 5 meses atrás