A essencia das Artes Marciais

Há muitos séculos atrás a China havia um imperador aficionado por briga de galos, a ponto de não perder nenhum espetáculo de rinha.

Conta-se que ele nutria um enorme desejo de possuir um daqueles galos, mas receava que se a ave viesse a perder uma luta sua autoridade imperial pudesse sair arranhada, em razão das chacotas do povo. O desejo e a paixão por briga de galos, entretanto, acabaram falando mais alto e o imperador recomendou que fosse gerada uma ave do cruzamento entre o melhor galo de briga da época com uma galinha de excelente porte.

A ave assim concebida, desde os primeiros dias de vida, foi preparada para ser um campeão: a ração diária lhe era administrada levando em conta o regime de crescimento e de exercícios a que os tratadores imperiais a submetiam; na parte técnica e psicológica de preparação para o combate, foram requisitados os serviços do maior mestre de artes marciais de que se tinha notícia.

Ao fim de seis meses de preparação, o imperador, já revelando ansiedade para ver o galo em ação, chamou o mestre de artes marciais e perguntou-lhe como estava o galo. O mestre relatou ao imperador que o galo tinha feito progressos notáveis: já havia atingido a fase adulta, estava no tamanho ideal, era muito rápido e forte; dominava inúmeras técnicas de combate, mas estava extremamente agressivo, em virtude do treinamento técnico de luta, e isso lhe tirava a concentração.

Para corrigir essa falha, pediu o mestre mais um tempo para trabalhar o emocional da ave. O imperador aquiesceu, dando mais um mês para o mestre treiná-la.

Passado o prazo, o imperador, ansioso, chamou novamente o mestre e, algo contrariado, ouviu-o pedir mais um tempo para trabalhar o galo. Sua alteza imperial protestou querendo saber o porquê de o galo ainda não estar pronto. Em resposta, o mestre, disse-lhe que o galo estava mais forte e mais rápido que há um mês; dominava com perfeição todas as técnicas de combate, a ponto de já estar saindo das formas tradicionais de luta e criando novas técnicas; perdera o ódio pelos adversários, o que lhe permitia manter a concentração na luta em si; possuía muita coragem, mas ainda ficava tenso durante o combate, pois receava pelo resultado final. Não sem uma grave advertência ao mestre de artes marciais, o imperador concedeu-lhe mais um mês para treinar a ave.

Decorrido o tempo dado, o imperador voltou a chamar o mestre, mas em seu íntimo não iria admitir outra resposta que não fosse a de que o galo estava pronto.

Uma enorme satisfação tomou conta do imperador quando ouviu o mestre dizer que o galo estava pronto: já dominava todas as técnicas de combate, sendo capaz de criar outras dependendo da situação que se lhe apresentasse; enfrentava qualquer adversário sem ódio; tinha desenvolvido enorme poder de concentração e uma autoconfiança impressionante, a ponto de poder antever, aos primeiros movimentos do adversário, o desfecho da luta.

Só havia um problema, disse-lhe o mestre: para os últimos testes com o galo do imperador foi preciso trazer galos de outras regiões, porque no império não havia mais ave alguma com disposição de enfrentá-lo; em situação de combate, o mestre pôde observar que mesmo os adversários de outras paragens e que nunca tinha ouvido falar do galo do imperador, ficavam paralisados de medo e só restava ao galo imperial o sentimento de compaixão, para poupar-lhes a vida. Não havia mais adversários com quem lutar.

Essa fábula ilustra a essência das artes marciais: a preparação para o não-combate. O AIKIDO preserva essa essência.

8 anos 5 meses atrás